Hoje é um daqueles dias que a
saudade em meu peito arde e as lágrimas saem sem controle. A mente repleta de
lembranças do meu pai, que não posso chamar de velho, por ter sua vida descontinuada
ainda tão jovem.
Descubro-me em pensamentos que revelam
a vida difícil sem a sua presença: faz muita falta ouvir sua voz rouca e
desafinada a cantar as modas de viola, os seus abraços desajeitados em um tempo
em que os pais não tinham tanta liberdade de expressar afetividade pelos
filhos, os seus ensinamentos para a educação dos meus filhos, os seus conselhos
para as minhas decisões (mesmo que seja para optar pelo contrário à sua
opinião), a sua força para meus momentos de fraqueza, as broncas para eu não me
ferir por caminhos desconhecidos por mim e conhecidos pelo seu repertório de
sabedoria popular, as conversas ao redor da mesa em dias de chuva e que,
geralmente, a energia elétrica era interrompida, seus gostos, seu cheiro, seu
olhar.
Lembro-me que, em tempos vividos
em sua companhia, julgava-o um ser tão imperfeito: pelos estudos apenas
iniciados, por fazer cigarros com as folhas dos meus cadernos, por recorrer ao
álcool para refugiar-se da realidade, por não morarmos próximo aos seus
familiares... Goiás, por derrubar as árvores para a nossa sobrevivência, por
não ser um marido romântico.
Atentei-me, então, que a
perfeição estava justamente em sua existência que provocava toda a sensação de
segurança, de conforto e de sentimentos bons.
Até com sua partida ensinou-me
muito! A morte, também, passou a ter outro sentido; bem menos limitador e até
poética. Pois, se de alguma maneira nos aproximar novamente. Posso filosofar em
devaneios, mesmo sem perder de vista a realidade que é imposta.
Não mais terei a oportunidade de
ligar para qualquer coisa, nunca mais dedicarei tempo para a escolha de um
presente, seu perfume natural de mato verde não ocupará o meu olfato, não
poderei cuidar de sua velhice, não brincará e nem passeará com meus filhos, seu
sorriso ou seu sofrimento não será sentido por mim.
Alegro-me, mesmo assim, com
pensamentos saltitantes de cada momento que tivemos entre tantos: o pedido de
noivado em meio a notícia da gravidez, a festa de casamento, o nascimento dos
netos, a formatura, a mudança de cidade, nossa última conversa.
Com essa enxurrada de recordações,
uma canção de Cartola “As rosas não falam” parece desmistificar o meu coração:
Bate
outra vez
Com
esperanças o meu coração
Pois
já vai terminando o verão enfim
Volto
ao jardim
Com
a certeza que devo chorar
Pois
bem sei que não queres voltar para mim
Queixo-me
às rosas, mas que bobagem
As
rosas não falam
Simplesmente
as rosas exalam
O
perfume que roubam de ti, ai...
Devias
vir
Para
ver os meus olhos tristonhos
E,
quem sabe, sonhar os meus sonhos
por
fim