terça-feira, 16 de setembro de 2014

Hoje é um daqueles dias que a saudade em meu peito arde e as lágrimas saem sem controle. A mente repleta de lembranças do meu pai, que não posso chamar de velho, por ter sua vida descontinuada ainda tão jovem.

Descubro-me em pensamentos que revelam a vida difícil sem a sua presença: faz muita falta ouvir sua voz rouca e desafinada a cantar as modas de viola, os seus abraços desajeitados em um tempo em que os pais não tinham tanta liberdade de expressar afetividade pelos filhos, os seus ensinamentos para a educação dos meus filhos, os seus conselhos para as minhas decisões (mesmo que seja para optar pelo contrário à sua opinião), a sua força para meus momentos de fraqueza, as broncas para eu não me ferir por caminhos desconhecidos por mim e conhecidos pelo seu repertório de sabedoria popular, as conversas ao redor da mesa em dias de chuva e que, geralmente, a energia elétrica era interrompida, seus gostos, seu cheiro, seu olhar.

Lembro-me que, em tempos vividos em sua companhia, julgava-o um ser tão imperfeito: pelos estudos apenas iniciados, por fazer cigarros com as folhas dos meus cadernos, por recorrer ao álcool para refugiar-se da realidade, por não morarmos próximo aos seus familiares... Goiás, por derrubar as árvores para a nossa sobrevivência, por não ser um marido romântico.

Atentei-me, então, que a perfeição estava justamente em sua existência que provocava toda a sensação de segurança, de conforto e de sentimentos bons.  

Até com sua partida ensinou-me muito! A morte, também, passou a ter outro sentido; bem menos limitador e até poética. Pois, se de alguma maneira nos aproximar novamente. Posso filosofar em devaneios, mesmo sem perder de vista a realidade que é imposta.

Não mais terei a oportunidade de ligar para qualquer coisa, nunca mais dedicarei tempo para a escolha de um presente, seu perfume natural de mato verde não ocupará o meu olfato, não poderei cuidar de sua velhice, não brincará e nem passeará com meus filhos, seu sorriso ou seu sofrimento não será sentido por mim.

Alegro-me, mesmo assim, com pensamentos saltitantes de cada momento que tivemos entre tantos: o pedido de noivado em meio a notícia da gravidez, a festa de casamento, o nascimento dos netos, a formatura, a mudança de cidade, nossa última conversa.

Com essa enxurrada de recordações, uma canção de Cartola “As rosas não falam” parece desmistificar o meu coração:

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim
Queixo-me às rosas, mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai...
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E, quem sabe, sonhar os meus sonhos
por fim

Um comentário:

Anônimo disse...

parabéns mãe