quarta-feira, 20 de agosto de 2008

A Família e a escola na formação de leitores


Desde 1997 atuo na educação, trabalhando em instituições privadas ou públicas, dentro ou fora da sala de aula e sempre ouvi muitas reclamações de colegas sobre a falta de leitores no Brasil e sobre a ausência dos pais e/ou responsáveis nas questões educacionais envolvendo seus filhos. Dentre essas questões, o que evidentemente necessita ser ressaltado é a importância da família na formação de leitores. Pois, leitores não surgem sobre o nada, leitores são formados sobre as experiências vividas, sobretudo, antes mesmo do ingresso à educação formal.
Mas convém ressaltar, uma triste estatística que é a média de livros lidos por pessoa/ano no Brasil: 1.8. Enquanto que, na Inglaterra esse número sobe para 4.9, na Itália para 5, nos Estados Unidos 5.1 e na França 7 livros é a média de livros lidos. Porém, essa realidade não é de conhecimento da maioria dos pais e também de alguns professores, os quais esquecem que para conquistar uma platéia é preciso seduzi-la. Logo, para que esses índices apresentados sejam diferentes, faz-se necessário a mudança de postura quanto a leitura tanto pela família como pela escola.
Aos pais, cabe uma reflexão: qual idade tinha seus filhos quando ganharam os primeiros livros? Quantos livros seus filhos já receberam de presente? Quantos livros vocês já leram e recomendaram aos seus filhos? Vocês lêem perante seus filhos? Vocês lêem para eles e com eles?
Aos professores e profissionais da educação em geral, também é possível uma análise da prática pedagógica adotada no cotidiano da escola: Vocês cobram que seus alunos leiam ou incentivam a leitura com suas próprias atitudes? A leitura na sala de aula e/ou na escola tem momento privilegiado, planejado, transdisciplinar ou algo para esperar bater o sinal, para preencher o tempo, simplesmente ocupar os alunos após terem concluído as tarefas? Ou ainda, sua escola faz das diversas leituras uma prática diária ou elege um “Dia D da leitura”?
É preciso observar, também, o que foi exposto na Folha de São Paulo de 28 de setembro de 2004:
“Apenas 25% dos brasileiros com idade entre 15 e 64 anos são capazes de ler textos longos, localizar mais de uma informação e estabelecer relações entre diferentes textos, de acordo com o Inaf (Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional) de 2003, índice obtido a partir de pesquisa da ONG Ação Educativa, em parceria com o Instituto Paulo Monte Negro, do Ibope.”
Assim, é possível constatar que lê-se pouco no Brasil e essa postura de não-leitores é prejudicial em todos os sentidos. Porém, a leitura, trata-se de um hábito que pode ser formado e formador. Sendo que este, urgentemente precisa ser introduzido nos lares, nas escolas, nas praças, entre outros. Isso se justifica pelo fato de que aprender torna-se mais fácil quando ocorre pelo exemplo. Pois, do que vale cobrar os filhos e alunos a leitura, se professores e pais também não lêem, ou o fazem forçadamente? O exemplo é mais valioso, é para a vida toda. Assim como retrata Nolte (pp. 13 e 14, 2003):

“(...) as crianças aprendem o tempo todo com os pais. Seus filhos estão prestando atenção em vocês. Talvez não ao que vocês lhes dizem para fazer, mas certamente ao que de fato vêem vocês fazerem. Vocês são o primeiro e mais importante exemplo a seguir. Os pais podem tentar ensinar certos valores, mas as crianças inevitavelmente observarão aquilo que é transmitido através do comportamento, dos sentimentos e atitudes de seus pais na vida diária.”

É por esta razão que especialistas concordam que a solução para os problemas da escola, em parte, estão na família e que a solução para os problemas da família estão também, em parte, na escola. Mas para essa transformação faz-se necessário a percepção de que o ato de ler é plural. Pois, só assim, educando pelo exemplo, será possível ter alunos lendo mais na escola e filhos lendo mais em casa.
O caminho, assim, é de mão dupla como ressalta Tiba (p. 164, 1998):
“A escola precisa alertar os pais sobre a importância de sua participação: o interesse em acompanhar os estudos dos filhos é um dos principais estímulos para que eles estudem.”
Se o nível de leitura é baixo, é necessário que haja mudanças no sistema de ensino. Os alunos não se interessam pela leitura na escola e não há o que ler nas casas desses alunos, só há uma solução possível, o contato cada vez mais próximo e freqüente com o livro, ainda que o mais simples possível, pode levá-los a querer se aprofundar no universo da leitura. Tornando assim esse efeito dominó em um ciclo positivo capaz de transformar a situação atual em novos caminhos, pois a leitura torna os sujeitos mais conscientes, criativos, responsáveis, afetivos, sensíveis, generosos, além de eternos aprendizes. Dicas para gostar de ler e ensinar os pequenos a gostarem também:
Aproveite as pessoas que gostam de ler para indicar boas leituras;
Pesquise sites de literatura na internet para descobrir livros interessantes;
Visite feiras de livros e participe de palestras com escritores;
Experimente variar suas leituras, leia jornais, crônicas, quadrinhos, entre outras;
Após assistir a um filme cuja história foi baseada em um livro procure ler também a obra original;
Freqüente as bibliotecas públicas de sua cidade, a sala de leitura e/ou biblioteca de sua escola, livrarias, pois só se apaixona pelo que se conhece;
Reserve, também, algumas horas por dia para a leitura em família, principalmente com os menores que estão em fase inicial de alfabetização;
Leve as crianças para eventos em feiras culturais com contadores de histórias ou conte você mesmo;
Dê livros de presente, converse com as crianças sobre os mesmos e peça-lhes que comentem a história que acabaram de ler;
Tente dosar as atividades, como: computador, tv, videogame com a leitura. Estabeleça horários fixos para os jogos eletrônicos e para a tv;
Estimule o hábito pela leitura através de jogos com palavras, frases ou brincadeiras diversas.

Referências Bibliográficas:
ARRUDA, Antônio. Para construir leitores. Folha de São Paulo. São Paulo, 28 de set. 2004.
Tiba, Içami. Ensinar Aprendendo: como superar os desafios do relacionamento professor-aluno em tempo de globalização. São Paulo: Gente, 1998.
Cury, Augusto. Pais brilhantes, professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.
Nolte, Dorothy. As crianças aprendem o que vivenciam. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

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